
Minha mais distante recordação: uma semana antes de completar quatro anos. Estava eu com uma amiguinha, chegando numa sala, onde muitas pessoas conversavam e algumas choravam. Não entendi o que estavam fazendo ali. Havia uma mesa no centro da sala. Sobre ela, uma caixa azul (eu já sabia ver cores, pois me lembro até hoje da tonalidade: azul claro). Ao lado da mesa, sentada numa cadeira, estava mamãe. Lenço na mão, lágrimas nos olhos. Soluçava baixinho. Perguntei-lhe. “Mamãe, cê tá chorando?”. Ela me respondeu: “Não, filha, a mamãe está resfriada”. Olhou para os lados, chamou alguém e ouvi quando mormurou: “Levem a menina daqui, ela é tão novinha, aqui não é lugar para ela ...”. Nesse instante, senti-me envolvida por alguns braços que me afastavam do local. Eu não queria ir, lembro-me que não queria deixar mamãe. Ela estava doente, pôxa, eu queria lhe fazer companhia. Nem reparei que meu irmãozinho mais novo, de quem ela não se separara nos últimos dias, pois o dizia “doentinho”... não estava em seu colo. Mais tarde, em casa de meus avós, perguntei-me: onde será que ele estava?” Dias depois, soube que havia ido morar com Papai do Céu. Muitos anos mais tarde, percebi que naquele dia eu havia assistido pela primeira vez, um dos tantos momentos de sofrimento e dignidade daquele anjo a quem escolhi para ser “minha mãe”.